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- Como eu faço para parar de me perguntar como eu faço?
- A morte ou pensamentos típicos de Halloween e Finados
- Em estado de formigamento
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“Você precisa ter uma outra linha de pensamento”, ela me disse. "Precisa tentar ver essas questões com o lado emocional, precisa ver o seu lado emocional de uma outra forma."
“E como seria esse lado?” Como eu faço?”
- Aí é que está. Nem tudo na vida dá pra gente fazer alguma. Tem coisas que não há o que fazer.
- E como eu faço?
Minha psicanalista soltou, então uma boa gargalhada, e eu também, ao perceber o meu pensamento viciado.
Já fazem horas que levantei do divã, mas continuo quebrando a cabeça com isso. Preciso abrir um espaço na minha cabeça e entender as coisas de uma outra forma, para que eu me desgaste menos com algumas questões. Mas meu pensamento racional, segundo ela, superdesenvolvido, insiste em enxergar as coisas de maneira funcional, como se tudo fosse solvível por um manual de “como fazer”. E eu, na busca por uma resposta, já me peguei, só nessa manhã, usando “como faço...?” 300 vezes na frente de frases mentais para descobrir essa tal outra forma de entender o mundo.
Com certeza foi uma das sessões de psicanálise mais interessantes que já tive, mas não consegui descobrir como funciona essa outra forma de pensar. Perguntei se era abstrato, ela disse que não. Perguntei se tinha que parar de me questionar, ela disse que não, só mudar o tipo de questionamento.Perguntei se tinha que não fazer nada, ela disse que, pelo contrário.
A idéia de aprender a entender algumas questões de outra forma me parece tentadora. Não é à toa que pensei nisso a manhã inteira. Mas isso me soa tão exótico e novo, que mais do que uma linha de pensamento, me soa como desenvolver um sexto sentido. Como faço pra parar de me perguntar como faço?

Desde pequena tenho medo de espíritos, almas, assombrações ou seja o nome que for. Em algumas noites ouço barulhos, vozes, passos e vultos que me perturbam Eu não hesito em acender o abajur, não sem sentir um certo medo de sentir uma mão do além no caminho dos dedos até o interruptor.
Por mais que pareça, meu medo não é irracional. Eu acredito que não somos apenas um corpo ligado no on, e que a morte é o off. A morte não me parece o fim. A parte irracional, é imaginar que alguma enteidade queira deliberadamente fazer mal. E então, eu me pergunto: de onde vem essa imagem?
Nas últimas semanas aprendi muito sobre o Dia dos Mortos no México, data em que os mortos são recebidos pelos vivos com festa, suas comidas e coisas preferidas. Essa tradição mais antiga que os Astecas enxerga a morte apenas como uma passagem para outra vida, e ela deve ser festejada.
Na nossa civilização, que em grande parte é derivada da cultura européia, a morte é um tabu. As pessoas tem dificuldade em aceitar que um dia vão morrer, e que os outros também (quer prova maior que isso do que o medo de envelhecer das pessoas, que fazem mil plásticas para parecerem sempre jovens?). O assunto morte é sempre mal visto e deve ser evitado. Por isso, ao imaginar o desconhecido, este pode parecer mais assustador do que é.
Eu não duvido que em países como o México a morte também seja temida. Mas quando você lida com isso, é mais fácil de superar. É inevitável, todos vamos morrer, e a gente sabe disso desde que nasce. Mas preferimos ignorar isso e na hora de enfrentar a morte, fica mais complicado. O pior é que, se reconhecermos a finitude da vida, conseguimos aproveitar o efêmero e dar valor à vida. Quem sabe se conseguíssemos reconhecer que vamos sim, morrer, um dia, percebessemos que virar um espírito não é uma má idéia, já uqe, de certa forma, é uma maneira de viver eternamente. E se você fosse um espírito, você teria muito mais o que fazer do que assombrar os outros.

Depois do sofrimento por uma grande paixão que acabou mal, ou mesmo durante, existe uma certa sensação que inunda qualquer um, e costuma ser expressa pela frase: "Eu nunca mais vou me apaixonar". De certa forma, é como quando sentamos em cima do pé e ele começa a formigar: parece que nunca mais voltaremos a senti-lo. No fundo, sabemos que cada dedo está lá, mas dá uma preguiça gigante de mexer o pé para bombear o sangue, e medo da aflição que sentimos ao tentar fazer com que a circulação volte ao normal.
Por mais que pareça um grande cliché dizer "nunca mais quero me apaixonar", o sentimento é verdadeiro, e não um radicalismo barato. Ao mesmo tempo que sentimos uma leveza enorme, e saber que um dia vamos conseguir mexer o dedão outra vez, o pano de fundo é aquilo. Aquele misto de insensibilidade, lembranças dolorosas, e uma preguiça, pra dizer o mínimo, de se abrir e correr o risco de sofrer outra vez. Fora isso, a libertação do sujeito que nos inflinge tristeza, é como a brisa sentida em um dia de verão na praia. Ao mesmo tempo, parece impossível que, algum dia alguém seja capaz de arrancar todos aqueles frios na barriga, todos aqueles sorrisos, parece impossível que alguma história seja tão especial e bela quanto a última.

Acordo sem nenhum edredon na cama, quase chorando. Meu sono profundo não me impede de esquecer do sofrimento, nem de sentir o medo que agora faz parte de cada hemoglobina.
O sonho cruel é recorrente: se refere a traumas do passado, que tentam me prevenir de situações no futuro. Já faz muito tempo que aqueles situaçõea saíram do meu presnte, mas quando acordo, aquilo tudo é tão vivo, que mesmo depois de horas longe da cama, me comporto como se tudo aquilo tivesse acabado de acontecer, ou pior, fosse uma premonição. É difícil perceber que não foi um pesadelo e sim uma lembrança da realidade. É muito mais fácil ter pesadelos com os meus medos surreais, como aqueles em que eu sou ameaçada por tubarões ou levada por extraterrestres.
Tenho certeza que, em muitas noites, esses sonhos não chegam à memória, e eu consigo acordar em paz. Mas em outras, passo o dia à tentar superar uma dor que eu achava já ter sido superada. Não sei como lidar com isso, só que enquanto o dia passa, recoloco os fatos e os medos em suas devidas datas.
A noite se aproxima e meus olhos cedem à lei da gravidade. É assim que, em alguns dias, começa o ciclo vicioso: sinto medo de sonhar com todo aquele terror psicológico mais uma vez, e com o medo os pesadelos vêm com hora marcada, como uma consulta no cardiologista. Quem diria que todo aquele sonho de anos atrás, se transformaria em pesadelos, tanto tempo depois?

Eu ainda era muito pequena quando ouvi pela primeira vez, dos meus pais: "Não dá pra querer tudo na vida": é preciso escolher. Desde então, foram muitas as vezes que essa frase voltou à minha cabeça, às vezes como uma conclusão, e uma ordem para que eu escolhesse.
O que eu não sabia é que essa máxima, que para alguns soa apenas como um artifício dos pais para lidar com crianças mimadas, também é um conceito essencial na economia: o "Trade Off" é a escolha conflitante, a necessidade de optar por uma coisa ou outra, pois os recursos são limitados.
Porque às vezes, para realmente percebermos as coisas, elas precisam fazer o caminho contrário, e serem teorizadas, conceituadas? Esse é um dos casos. Os Stones cantavam, "you can't always get what you want" e John Locke, em sua teoria do empirismo, explica que "Uma pessoa nnao pode estar em dois lugares ao mesmo tempo". Mas a economia é a área de humanas das mais exatas, e exergar um Power Point explicando Trade Offs, foi um tanto assustador.
Que a vida é um trade off é tão óbvio, que pode ser até ofensivo ouvir dos outros. Porém, apesar de óbvio, quantas vezes você já não se viu tentando fazer tudo ao mesmo tempo?
Queremos ir pra praia cedo, mas curtir a balada, namorar e ver os amigos, estudar até rachar e ainda assim ter vida social. No fundo, nada disso funciona. É claro que, diferente da economia, em muita coisa dá pra fazer duas coisas ao mesmo tempo. Mas no fundo, a gente não aproveita nem uma, nem outra. Ou aproveita uma e fica com raiva da outra.
No fundo, o conceito de Trade Off, é simplóriamente, entender que "é melhor ter um pássaro na mão, do que dois voando". Muito fácil, simples, óbvio. É mesmo? No fundo, aceitar que não dá pra querer tudo, e aprender a escolher parece uma missão pra vida toda.

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